Sábado, 2 Abril 2011

…pois é.

humphrey-bogart-by-yousuf-karshminha amiga tem uma  diarista há anos. Pessoa fiel, sabe de tudo no ambiente do lar e por pouco manda em todos. Claro que faz o que quer. No dia a dia a relação [engraçado... 'a relação', tudo agora é relação] parou de frutificar, e ao invés de melhorar, como tudo com o tempo, fenece. deteriora, cai, distorce; ou se transforma. Algumas  coisas ou situações…melhoram. Assim mesmo; relativista e paradoxal. Hoje em dia a relação entrou na  fase do jogo, um game que ninguém quer jogar mas participa de modo velado. Como mulheres vestidas em suas burcas. Denise Stoklos com sua fantástica mímica e intensidade corporal  saberia imitar esse jogo como ninguém. Não há nada direto, transparente. Há duas linguagens paralelas; uma é subterrânea, sombria, esquizo, cínica, a outra é a do discurso oficial. Convenhamos. Sâo relações doentes. Insanas. Mas isso faz parte do game.

Chegou-se a um ponto em que a diarista quando esgota qualquer possibilidade de argumento [se é que o tem] apenas diz: ‘Pois é…’  e tal resposta vale para o quê, como, quando, onde ou por quê?

Dia desses fui ao banco. No caixa automático a responsável  ajudou-me a pagar um boleto de cartão de crédito [não antes de se tentar desenrolar uma novela mexicana dentro do banco... ai meu deus, isso é politicamente correto? O que está nas entrelinhas??? Lacan explica?] . Pois bem. Confirmou o valor, por minha preguiça em colocar os óculos. Estranhei dizendo que era bem menos. ”Nâo, respondeu-me, este valor é o total’. A canseira, preguiça ou conformismo da idade me faz desistir. Em casa, verifico que sim, eu estava certa e paguei quatro vezes o valor.  Ligo para ela. Responde: ‘Ah! então a senhora agora tem um crédito!’. Pois é. Agora tenho um crédito num cartão de crédito. Devo achar bom, então é isso? Neste caso o que espanta é a superficialidade dos atendimentos. Essa sensação de  ’pois é…’  leviana, descomprometida, irresponsável. Sentimento de que ninguém liga para nada. 

Um garçon derrubou caldo quase fervendo na perna de minha filha. Pois é.

Pois é. Agora também é comum a pessoa dar um prêmio para ela própria. A gente é convidada para algo e a pessoa premia a si própria. Isso mesmo. O  instituto, a fundação, a mulher, o marido, a filha, o filho. Coisas absínticas. A nova ética do século XXI. Coisinhas voláteis.

ouça:  http://www.youtube.com/watch?v=tkJNyQfAprY

imagem: Humphrey Bogart, by Karsh

Quarta-feira, 9 Março 2011

…mania de felicidade[2].

1299210700_large-image_jean_paul_riopelle_descriptif_1959_001_oil_painting_large … longe de mim parecer simplista no felicidade[1]; mas a exaustão de discursos, estes sim, simplistas. a gente sai por aí e a superficialidade de análises é estarrecedora. Luiz Felipe Pondé  é cáustico e realista em seu artigo [FSP,7/3/11]. http://sergyovitro.blogspot.com/2011/03/luiz-felipe-ponde-deus-me-livre-de-ser.html 

lembro desabafos de meus filhos, irados comigo, em momentos extremos de lucidez diante de um mundo um tanto além do reino da Dinamarca. Minha filha, em Berlim ocidental, dias após a queda do muro, foi visitar parentes de sua amiga no lado oriental. que experiência! ligou-me no retorno ao ocidente, aos prantos, bendizendo sua vida brasileira, mas irritada comigo por incentivá-los a conhecer o mundo. o outro lado de tudo diante de nossa tosca mas feroz realidade. conversamos quase 1 hora, cada uma num lugar do planeta e eu pedi a ela um pedaço do muro que fazia parte de minha história. sempre paguei para ver. e isso tem preço. a liberdade, a escolha tem um valor que cada um quantifica como quer. como diz Pondé, ‘quem quiser ser livre, que aguente a insegurança da liberdade’.    

 e  uma amiga: é impossível ser feliz neste mundo. para quem percebe todos os lados do planeta sim. é impossível.  persegue-se estar bem, minimizando à nossa volta, a pobreza geral. pobreza de tudo, muito além da fome física, a começar pelo conhecimento – aquilo que ninguém nos tira. pequenez face ao assombro do planeta.       

…me sinto próxima da teoria da conspiração. me sinto navegar entre ela, ancorando aqui ou ali, em portos que me abrigam temporariamente; na ilusão de serenidade, de tranquilidade, de bem estar.  logo outra tempestade se aproxima e aprende-se a sobreviver e ser feliz nos intervalos, talvez mais longos, mas não menos intensos. a idade cria espaços de resguardo, casulos convenientes, isolamento ou distância protetoras.    

aguardo o jornal com ansiedade, quero saber, a cada dia, o que acontece. vou direto ao caderno Mundo e ali [não me odeio] mergulho em outras realidades, de irmãos desconhecidos mas gente como eu. gente de terras milenares das quais tribos foram excluídas. gente de terras em que mapas foram desenhados e repartidos em linhas retas em mesas de colonizadores [os infográficos dos jornais evidenciam isso todos os dias, mas o olhar ligeiro não vê  -  e se tribos foram divididas ao meio, quem se importa?]

gente destemida que larga o nada que possui e se atira ao mar em barcos frágeis. gente ninguém, sem nome, sem papel, sem país. com passado, história, raízes. Amin Maalouf não gosta dessa noção de raízes. prefere  liberdade no mundo.

felicidade?   

[lembram-de um país chamado Tibet?]

imagem: Jean-Paul Riopelle, anos 50.

Terça-feira, 8 Março 2011

…mania de felicidade.

proteus_1984não sei o que acontece, mas todos temos  neura de ser feliz. e ponto final. quem não é feliz, não tem cara de feliz ou não está exalando felicidade e bem estar não é aceito ’socialmente’. estou certa? essa é minha percepção. ninguém tem tempo, paciência, tolerância com pessoas de mal com a vida, entediadas, raivosas, mal humoradas, depressivas… o que essas pessoas deveriam fazer? se esconder? fugir?  ficar em casa isoladas, trancafiadas, presas  com seus demônios internos?  claro, refiro-me a manifestações simples, longe de excessos.

nestes tempos estressados todos temos o dia em que tudo dá errado e temos até que recomeçar…  creio que o que desgasta é essa  ‘necessidade’  de dar certo, estar com boa aparência, de bem com a vida, ter sucesso, manter o sorriso, mesmo quando a alma chora. não há quem aguente!

ao menor sinal de [a]normalidade  [e o que é isso, afinal?] todos têm receita certa, mensagem adequada, e indicam depressa a melhor jnutricionista, terapeuta, psiquiatra, benzimento, acupunturista, e sei lá mais o quê…quando, o que se deseja é ser ouvido. apenas desabafar. ouvir é algo raro.

chorar a morte ou perda de alguém é depressão. resmungo sobre a vida..  e lá vem o conselho,  deixa quieto…mas, como extravasar? vazar emoções? transpirar sensibilidade? manifestar amor? carinho? 

essa overdose de perfeição mata… dilacera. ao mesmo tempo que a liberdade é um valor e a independência uma conquista, a superficialidade, a coisificação e a liquidez são características contraditórias e complexas que fazem sofrer.  esse novo padrão é cansativo… a humanidade está na intuição, na emoção, na alegria e na tristeza.  também na imperfeição.

modelos de bem estar, beleza, sucesso… livros, receitas… custe o que custar… atenção. olhar os limites pessoais, as contradições, os paradoxos não fazem mal a ninguém… sempre é bom saber o que é ser feliz para você… lá… do fundo da alma.  

imagem: Proteus, Cy Twombly, 1984.

Sábado, 12 Fevereiro 2011

…ansiedade.

Gaskellquem não sente ansiedade nestes tempos insanos, mas excitantes? dia desses num lugar qualquer vi um jovem cujas pernas quase descolavam de seu corpo tanto pulavam… pernas inquietas e ansiosas. será que ele percebe sua ansiedade? creio que não.  

demandas, solicitações, pessoas on-line conectadas em tempo integral, imersas, radioativas e etéreas. quem consegue viver assim? usando múltiplos meios de comunicação ao mesmo tempo? o viver é um ato de estresse, salvo colocarmos limites claros e contundentes. limites  em nosso tempo.  o tempo de cada um.  sem permitir invasões. essa vida transparente, aberta, sem privacidade tem suas desvantagens. não há tempo para si mesmo. ‘se dar um tempo.’

tempo para estar a sós. longe de imagens em movimento, tevê, computador, celular de qualquer tipo, horário… deixar que o tempo se regule pela vontade, no silêncio ou barulho de si mesmo. para muitos, esse ato é difícil. pensar ou estar em silêncio incomoda mentes inquietas, que procuram algo que não sabem o que é…  tropeçam no que é exterior, se batem, caem. e deixam de lado a riqueza da alma que sabe tudo, embora contraditória, complexa, tão cheia de nós como os das redes.  mas sempre extraordinária. 

viver.viver é ser artista. e artistas não precisam ser ansiosos. não faz sentido… dia desses li um texto tão amargo, tão de mal com a vida, tão raivoso. artistas criam, liberam, expressam, interpretam.

dia desses, aqui e ali… a gente vê, sente, olha, saboreia muitas coisas… enquanto alguns odeiam. sentem raiva, inveja, sede de poder. sentem raiva dos que são… e se corroem para ser… e por aqui ou por ali a ansiedade permeia o cotidiano como vapor que se infiltra pelo ambiente. querendo ser disfarçado.

ansiedade  não é sofrer antes da hora? sofrer por antecipação? ter expectativas muitas vezes equivocadas? não se pode prever o futuro. mas se pode praticar, por muitos meios, técnicas, exercícios a consciência do estado de ansiedade e com isso atenuá-la, senão até mesmo afastá-la. 

imagem: anna gaskell, untitled, 1996.

Sábado, 29 Janeiro 2011

…curitiba.

ouça: beatriz, milton nascimento. http://www.youtube.com/watch?v=rypL0El5k1I

memorial-fotoscuritiba hoje. afinal, quem somos nós, os curitibanos? curitiba é uma nova  atmosfera, ambiente, espaço. cresceu, evoluiu, modernizou-se. tem ares de cidade cosmopolita, contemporânea, dona de seu tempo, com resquícios provincianos. a cidade mais ‘europeia’ do Brasil, a cidade limpa com projetos inovadores em urbanismo. rua das flores, boca maldita, ciclovias, jardins ambientais. Paulo Leminski.

curityba viva das carrocinhas e charretes que compartilham espaço com ônibus bi-articulados… da rua da liberdade, atual  barão do rio branco. da tradição das etnias -suas danças e folclores, histórias que se amam contar;  seus parques temáticos. cidade sorriso das áreas verdes preservadas, dos estudantes, do ligeirinho, das pessoas críticas, crenças e mitos que a intelligentsia adora discutir. cidade curiosa, construída, longe do mar. curitiba incoerente, contraditória, vila e metrópole. das quatro estações. dos catadores de papel - os carrinheiros, às zonas industriais carrega pelas ruas e bairros pessoas vivas,  pobres e ricas no sentido mais amplo que se possa interpretar.

o que faz essa cidade ser diferente? ser ela mesma? com seu jeito característico que cada um define como quer?  qual é a sua cara? por que ninguém sorri nesta cidade?, me perguntou um professor gaúcho. por que as pessoas não se cumprimentam nos elevadores?  por que no meio do evento nos convidam para almoçar, visitar e depois nunca mais…? seriam tímidos, frios, sérios, antipáticos?  há uma cara?

curitiba, cidade amada, criticada, modelo de tanta coisa, cidade positiva e negativa… ela mesma. com sua personalidade meio estranha, meio excêntrica, meio de tudo um pouco. caldeirão efervescente da diversidade.

quem são essas pessoas, os curitibanos (ou não?!) que caminham pelos bosques, passeiam pelas ruas, trabalham desde o amanhecer enquanto outros atravessam noites em bares e baladas?

iguais, mas diferentes. diferentes, mas iguais. das favelas e seus varais coloridos por roupas lavadas, dos edifícios sem muita personalidade, dos cafés, bares e restaurantes com estilo. das comidas e feirinhas noturnas espalhadas que reúnem as gentes.  como toda província, cidade, megalópole.

como definir o indefinível múltiplo, líquido que se transforma, por isso mesmo interessante? como interpretar aquilo que é variável, (in)consistente, nunca perene, mas sempre pulsante?

…curitibanos…  quem somos nós?

imagem: memorial de curitiba

Sexta-feira, 21 Janeiro 2011

Fundação Cultural de Curitiba

LW409Desde que assumi a Presidência  da  Fundação Cultural de Curitiba [FCC] minha vida virou do avêsso. Dias sossegados  se evaporaram. E eu, inocente,  pensava que eram tempos agitados… Uma longa lista de pedidos de agenda que quero, mas não consigo sequer instantes para atender.  Agenda espremida sem espaços previstos para a longa e profunda respiração. Telefonemas para retornar. Comentários, contatos no Facebook que tento dar atenção. Ver, deletar, responder, excluir e-mails, mensagens por todos os meios. Internas e externas.

Em meio ao caos da comunicação instântanea, dois celulares [?! como se um já não bastasse para nos levar à loucura], elaborar um planejamento focado [foco, foco, foco, diz César Souza], administrar o tempo, otimizar a comunicação em reuniões produtivas, delegar, acompanhar, ser proativa [sem se deixar embaraçar pelos meandros da reatividade], ler projetos, propostas, contratos, decretos, leis, assinar e assinar…  motivar, buscar resultados qualitativos e quantitativos.

 Cuidar da saúde. Da alimentação. Manter a ioga. Ter serenidade. Discernimento. Compreensão… em meio a milhares de  idéias que transpiram… vivas e [im]pertinentes. Ousadas e insolentes. Alegres e saborosas.

Meus filhos. Minha nova casa [onde já moro]  em processo de finalização.

Cultura e arte. A amplitude e abrangência do tema: Cultura. Filosofar sobre ela, essa cultura que se faz presente em todo e qualquer espaço e lugar. Artistas, produtores, gestores dessa oficina permanente e buliçosa que é o fazer artístico. Criação e criatividade entrelaçadas navegando em mares revoltos. Idéias, idéias e idéias que chegam por todos os lados.Os problemas de sempre que envolvem a cultura; orçamentos curtos para o tamanho dos desejos.  Aí se instala o desafio. Fazer acontecer. Em meio a intempéries, pessoas que querem realizar, produzir,  mobilizar, incluir.

Ousar; é preciso.

imagem: Bond of Union, 1956,  M.C. Escher.

Domingo, 5 Dezembro 2010

…logo mais, um instante.

ouça:Va pensiero, G. Verdi. http://www.youtube.com/watch?v=7K68tdN3fYw&feature=related 

CommingSoon1escuto a gota d’água que toca o telhado. Aquieto-me. Escuto pássaros que buscam refúgio em seus ninhos entre pios fatigados. A tarde cai. O entardecer é lento, preguiçoso. Como meu coração neste instante. O silêncio oscila entre ruídos mágicos. Me encolho, me apequeno. A tarde parece sempre tombar… enquanto o amanhecer resplandece revigorante. O final da tarde molhado é melancólico. Me alargo, respiro e sinto. Olho a grama molhada e feliz. Olho as árvores, os roxos de flores que amo. Sinto o perfume da terra úmida.  O chá de  jasmim me aguça os sentidos.  O som de Verdi, entre suave e dramático, pouco distante  de meus ouvidos é expressivo: ‘Va pensiero’.  Nuvens cinzas dançam, se des-encontram, voam, sem  oferecer chance ao azul infinito. O coro  segue… Lembro o filme de Carlos Saura : ‘Tango’. Os passos, a voluptuosidade, a música sensual. O crescendum… nada a ver com a doce magia dos pingos da chuva, garoa complascente. Memórias, lembranças; resgates. Sem piedade e com ternura. Sincrônicos. Dissonantes. Internos. Na imobilidade corporal. Na fadiga do pensamento. No vazio do momento que não esgota . Perene, infinito, abrangente. Frágil instante fugaz.  janela se fecha na rotina cotidiana. A cortina desce sonolenta. Barulhos, aqui, ali… inação. E a noite se faz gente.

Sábado, 30 Outubro 2010

…mãos de fada.

ouça:  Arvo Pärt, Cantus in Memory of Benjamin Britten. http://www.youtube.com/watch?v=e348n660zrA&feature=related

S988… tocar alguém é manifestação de sentimento. O toque revela cavernas da alma. Iluminadas ou sombrias. O modo de tocar transmite ansiedade, amor, carinho, desprezo, agressividade, mal-estar ou desconforto. Uma pessoa gélida ou caliente. Alguém que não suporta nos tocar; é mais do que ela pode.

Estes pensamentos surgiram num dia de massagem. Já fiz massagem pelo mundo onde passei. De Tokyo, Nagoya, navio pelo Caribe, Ottawa  a um resort à beira do Mar Morto na Jordânia  até minha cidade, Curitiba,  já  me submeti a muitas massagens e diferentes técnicas. Nada mais relaxante. Hoje mantenho massagem como tratamento de saúde contra a ansiedade e o estresse cotidiano. Não abro mão.  E se fico algumas semanas sem fazer meu corpo se ressente, músculos começam a enrijecer, a cervical tensiona e ‘quase’  é preciso recomeçar do início o que parece redundante.

Dia desses a massagista era uma jovem promissora em sua profissão. Tinha o dom do toque. As mãos e a pele suaves sabiam o que fazia tecnicamente; mas sua juventude ansiosa e impaciente tornavam os gestos entrecortados. Era como se freasse um carro de soco, abruptamente. O gestual não finalizava o movimento; pelo contrário. Parava de modo súbito e… recomeçava.

O crítico de música Zuza Homem de Mello ensina que uma boa voz tem alguns ‘enta’. Lembro de Chavela Vargas. E pensei que uma massagista também precisa de maturidade. Maturidade nos dedos, no toque, na paciência, no silêncio interior e exterior, na individualidade, na sabedoria ao usar técnicas mescladas.

Massagem é um ritual. Silêncio obrigatório, obscuridade, música em intensidade adequada, aromas, óleos, tecidos agradáveis e conforto total. E mãos de fada. Mãos que conhecem meridianos, órgãos, tensões, músculos. Mãos que sabem dosar a pressão nos pés, na cervical, nas costas. Uma pessoa que compreenda que  a cabeça se une ao corpo pelo pescoço e, portanto, não o deixa de lado. Massagem requer um profissional que conhece e estuda o corpo e sabe o que cada dedo do pé significa apenas pelo olhar. Jovens imaturos ansiosos para olhar smart phones não conseguem repassar a  tranquilidade necessária; ainda que as mãos sejam de fada.

É preciso alguns anos de experiência, vivência e idade  para se obter harmonia gestual no toque da massagem. Um movimento contínuo que não se interrompa, pelo contrário, seja alongado, extensivo e a finalização encerre uma etapa ritualística e sagrada.  O corpo é sagrado. Como a árvore da vida. E não é qualquer um que pode ou sabe tocá-lo com sabedoria.

Massagem é um tratamento, um processo de cura, um longo processo de percepção e sensação. Como o ioga ou o tai chi chuan  é um caminho… uma peregrinação de conhecimento corporal,  mental, espiritual.  Um conhecimento profundo sobre a respiração e sua relevância na saúde geral. Uma meditação. E um pequeno passo…

Nem todos estão preparados para caminhar.

 imagem: La main de Dieu by Rodin, 1896.

Domingo, 24 Outubro 2010

…quatis.

ouça Eric Satie, The colors of autumn, Gymnopedie, no.1:  http://www.youtube.com/watch?v=atejQh9cXWI

quati…em meio a estes dias turbulentos para os políticos, exaustivo para os eleitores, em clima de final de ano para os que trabalham, um dia de sol tornou meu cotidiano diferente. 

Se olharmos o mapa de Curitiba, o Hugo Lange, bairro em que moro, é  no centro da cidade. Pois é aí que aparece uma gorda quati no meu jardim, encarapitada por quatro ou cinco filhotes já em bom tamanho, quase matando a diarista de susto. Ela já era minha conhecida; eu a vi numa noite subindo pelos ralos galhos de  uma quaresmeira depois de tentar encontrar algo na lata de lixo. Desta vez, passou perto de mim, calmamente, e subiu pelo fino tronco de uma glicínia para alcançar o telhado. ficou por um tempo, sem receio, como a esperar o inesperado.

Tentei fotografá-la, mas não consegui. Descobri  impotente a minha fragilidade tecnológica. Busquei à minha volta desamparada!  O  celular velho, do qual já me desfiz tal a indignação naquele dia, a máquina sem bateria, ela também velhíssima com seus 3 anos de idade, apta para o lixo e  eu… sem a foto. Pode? Que vergonha! 

O que fazer?  Chamar a quem? Prefeitura? Meio ambiente? Bombeiros? Zoológico? Quem poderia adentrar os labirintos de meu telhado para achar a família? Sim, agora descubro que era um casal, pois os filhos estão ali, mamíferos que são agarrados nas costas da mãe orgulhosa. Bem que escutei barulhos estranhos nestes últimos dias de vento. Olha só! Uma família aninhada sob telhas ou em algum ninho que desconheço. Alimentam-se de minhocas, insetos, frutas, ovos, legumes e gostam de lagartos.  Dormem no alto de árvores enrolados como bolas e não saem antes do amanhecer; são  diurnos ensina o wikipédia.

Que leveza! Contar durante o dia o surgimento de uma quati mãe. Assunto ameno, curioso, inusitado. Nada de dinheiros em sapatos, depósitos desconhecidos, reuniões que ninguém lembra mesmo se ter Alzheimer. [Sou jovem!] mas lembrei de quando menina, trepada em árvores pela fazenda encontrando animais esquisitos; foi ontem mesmo! E isso me fez pensar que o tempo – esse que não mensuramos pois sua escala  é mágica - , passa. E as boas lembranças ficam cada vez mais  iluminadas pelos desvios da memória que inebria.

Sábado, 16 Outubro 2010

…meu país.[2]

mikimoto-cultured-pearl-necklace…queria  me distanciar de política, mas não consigo. O que leio nos jornais? Opiniões de jornalistas em quem confio iniciando por política internacional. Os arranjos de poder ‘no e do’ mundo.  E então Brasil político, cultural, cotidiano e mercado.

O que sempre fiz primeiro e custei a perceber? Descartar o caderno de esportes. Sorry! Nem um de meus filhos é apaixonado pelo tema, como poderiam? 

Num ciclo de palestras  em São Paulo, um embaixador do Brasil que esteve por anos na região do Magreb explicava que lá fora, o olhar para as pequenas coisas evidenciam sutilezas significativas.  Uma notícia local como 800 rebeldes se insurgindo contra o poder, presentes na região central da cidade, incidente com mortes etc., poderia não aparecer no clipping da embaixada em nenhum jornal, salvo minúscula nota  no ‘Le Monde’ que o próprio embaixador localizou. Isso lhe dava a dimensão das notícias e da realidade pelo mundo. Quem só lê material editado como clipping

Um militar, pai de uma amiga, dizia algo similar. Tudo está nos jornais, basta  apreender; querer ver. Enxergar entrelinhas, espaços, hipóteses que levam a induções ou deduções ao longo do  tempo. Nosso tempo é caracterizado pelas ’suposições’, pelo  quase irritante ‘politicamente correto’, pela superficialidade no trato da questão pública entrelaçada com a privada.

Um pequeno detalhe nesta campanha me intrigou; bobagem, diriam alguns. O fato da candidata Dilma usar num dos primeiros debates um colar e brincos igual ao de Erenice Guerra. Jóia? Bijuteria? Ambas tinham as mesmas peças? Eram emprestadas de uma para outra? De quem para quem? Os marketeiros atentos a cada detalhe, postura, gestual, uso de vocubulário, posição de mãos, modo de olhar, expressões faciais, cores de vestuário… deixariam passar essse pequeno detalhe, totalmente expressivo? Claro que não. Dilma usou o colar e brinco que queria, então. Muito delicado para aquilo que ela é: assertiva, grande, forte, decidida, técnica, direta, curta… Muito delicado para aquilo que ela deveria parecer: ‘mãe’ de todos, feminina, mulher, suave, calma, acessível, preparada, gestora eficiente… Como e por que aquele conjunto entrou em composição com o tailleur branco? Porque Dilma queria. Ou, os marketeiros pseudo competentes estariam na rua…   

Restam muitas perguntas para poucas respostas, embora um jornal tenha publicado foto de 1997 de Erenice já com o mesmo adorno. Muitos comentários em blogs.

Mas nesse adorno, nessa linguagem não verbal, nessa postura, nessa atitude, nesse posicionamento [consciente ou insconsciente para ser politicamente  excessiva], nessa narrativa assertiva, firme, de quem sabe o que quer e onde quer chegar estrutura-se uma comunicação, uma imagem, um visual, uma mensagem. Uma interpretação. Livre. Porém plena de significados, significantes, símbolos e signos. Ninguém usa, escolhe ou veste nada por acaso.

divirta-se: http://www.chanel.com/

imagem: pérolas Mikimoto