Sábado, 4 Setembro 2010
…não faça de um câncer um projeto de vida.
ouça: 14 La Stravaganza – Concerto No. 11 R. 204, II – Largo / http://www.youtube.com/watch?v=RN8u7DLyEDk&feature=related
… ao saber de um câncer, junto com meus filhos, eles perguntaram ao médico se eu não devia parar de trabalhar. E um conselho sábio do oncologista foi: ‘Não faça da doença um projeto de vida’. Isso foi um divisor de águas em minha vida.
Pensei; algo passa por mim, mas não me pertence. Pensei muito. Afinal, diante de uma doença crônica, o que queremos fazer com nossa vida? Reformulei projetos, acelerei o tempo e curti cada fração de segundo. Olhei o mundo de outro jeito. E, sobretudo, passei a cuidar de mim – esta passou a ser a prioridade. E assim já se passou mais de três anos. Fiz quimoterapia, operação e radioterapia. Fiz uma fiosioterpia em Curitiba e depois em São Paulo, onde fique cinco semanas curtindo a cidade e amigos ao máximo em meio ao tratamento. Claro, fiz um curso que acabei por trazer a Curitiba.
Publiquei três livros, revisei uma segunda edição de um outro [só quem já viveu esse processo sabe o nível de detalhamento que exige], acabo de entregar o quarto a uma Editora sobre esta minha experiência com meu corpo, a saúde, a doença, a comunicação. Continuei minha rotina como coach e palestrante, atuando como consultora, e estou num novo trabalho em meio a uma segunda bateria de quimioterapia. Além de umas fugidas a São Paulo para consultas terapêuticas. Fui homenageada [e quase pensei que já estava indo...].
Há! Fiz uma peregrinação para a terra de origem de meu avô paterno – o Líbano, passando pela Turquia, Síria, Jordânia. Fui ao Perú, Machu Pichu, voltei uma semana antes dos desabamentos. Eram sonhos arquivados que inesperadamente consegui realizar.
Há! Estou finalizando um projeto de um loft pré-moldado para ir mais rápido [um sonho sem dinheiro que foi dando certo], obra que administro com uma construtora. E não sei se uma obra pré-moldada não dá mais trabalho! Exige planejamento. Antes de começar todos (sim, todos!) os detalhes tem que ser definidos. Pontos de luz, água etc… e qualquer mudança é muito mais complexa. Algumas, como quebrar um pedaço de parede por qualquer razão é impossível. Ou o desejo de uma nova tomada… mas não mudamos nada, salvo adaptações em função terreno.
Há! No ano passado fiz um mestrado de ‘Comunicação e Linguagens’ para ter mais fundamentos e compreensão de nossa realidade para o último livro. Foi sensacional aprender… ampliar a visão, desenvolver o espírito crítico… Uma doença nos defronta com o corpo, a identidade, a subjetividade, a espiritualidade. As perguntas essenciais da filosofia surgem: de onde viemos e para onde vamos. E… minha família achando tudo isso, tudo que faço, uma loucura. Não falam, mas sei como pensam.
Ao mesmo tempo, em projetos, como tudo conspira, como tudo se transforma; coisas inimagináveis acontecem. Boas ou difíceis. Muito difíceis também. Para nós e para os que nos rodeiam. Filhos, amigos, parantes. Que grau de importância damos ao que nos cerca? Vivo cada dia. Não antecipo, não sofro antes do fato. E quando chega algo, aceito como passagem. A filosofia budista me ajuda muito. A ioga, a massagem para a ansiedade, a hidroterapia. Tornei-me muito feliz. Tenho alegria interior e consegui atingir serenidade. mesmo quando tudo parece desabar; não vejo assim, mas como nova fase. Muito distante de auto-engano. Sei o que tenho. E faço o que é preciso. Acato com rigor o tratamento médico científico, mas faço também cuidados alternativos como acupuntura, homeopatia e o que mais me der vontade ou minha crença aceitar. Um reeducação alimentar também faz muita diferença. Afinal, seu eu não cuidar de mim, de meu corpo, quem vai fazer isso?
Imagino que sem projetos não estaria mais por aqui. A medicação do câncer varia de paciente para paciente. O que muda são as reações de cada um ao medicamento. E nisso podemos ajudar. Projetos de vida alimentam a alma, a energia, a percepção, as sensações. É preciso estar com todas as antenas ligadas, receptivas. Fico triste quando vejo alguém desabar e parar suas atividades. São elas que nos movem, são elas que criam possibilidades, que nos fazem levantar com energia. Olhar o mundo em todas as suas perspectivas. Fazer da doença um oportunidade, um avanço no caminho, no TAO . Sem fazer nada… o que restaria de mim?
imagem: ‘Tulipa’ by Geórgia O’ keeffe
…empresas me enlouquecem. Sempre me pergunto: se fazendo tudo sem planejamento, sem metas, sem buscar excelência, sem saber o que é treinamento, etc., elas sobrevivem num mercado fortemente competitivo, imagine se fizessem algo, pelo menos pequenas ações com rumo certo.
… sabe quando o tico quer correr para um lado e o teco fugir para o outro? Você quer sentar com amigos e conversar bobagens interessantes, entorno de boa comida e vinho daqueles… música especial, esquecer que existe tempo. Ao mesmo tempo você gostaria de navegar pela Internet descobrindo, lendo, ouvindo o que gosta. Quer trabalhar, mas quer não fazer nada. Quer ler o livro que comprou, mas a preguiça ou o cansaço espantam a vontade. Ir ao cinema? Jantar em algum novo lugar? eh….!
… foi ainda em 1989 que Wim Wenders fez o filme ‘Notebook on Cities and Clothes’ [Identidade de nós mesmos] sob encomenda do fabuloso Beaubourg, o Centro George Pompidou, Paris. Pediram-lhe um breve filme sobre moda, o contexto da moda. E nos maravilhamos com o documentário sobre Yohji Yamamoto. Uau, dois monstros em suas profissões. Wenders conseguiu captar a essência do estilista e a sensibilidade que consegue passar no filme é ímpar. Além do diálogo, ainda atual, com as mídias já naquele ano; – ano da queda do muro de Berlim. De Paris para Tokyo, os contrastes entre as duas cidades, sua dinâmica cosmopolita, sua contemporaneidade e o uso da câmera com seus intervalos, timing exato em cada cena, cortes, closes, edição de material fantásticos. Os silêncios de Yamamoto. Suas mãos que falam. O deitar-se no chão cercado de moldes com seus auxiliares. Um filme atemporal pela filosofia de ambos, um na leitura de outro. O livro, ‘Pessoas do século XX’, do fotógrafo August Sanders como elemento inspirador de Yamamoto. O livro repleto de post-its que caminha ao seu lado; fotos de pessoas em diferentes situações, profissões, idades. Gente real.
ouça:
…algumas coisas me encanam. É tão déjà vu encontrar nas empresas um dinossauro (sorry!), okay dino para os amigos, que ao começar um novo trabalho sentencia: ‘mas sempre fizemos assim…’ e isso é tão velho, que escutar essa frase numa agência de publicidade soa caricato. Ou ironia. Ou é daquelas que uma vez a conta ganha, sentam em cima do cifrão. Bem, é lamentável porque Curitiba segue com seu ar provinciano e apesar de tantos avanços escorrega onde não deveria. Um tipo de empresa que deveria ter olhos no futuro.
… uma exposição de Laurie Anderson no Guggenheim Soho, anos atrás, me impressionou. Se arte deve tocar, fiquei magnetizada. Sensação, tecnologia, conteúdo, sensibilização, pertencimento universal, integração. Ficaria imersa por horas… como fiquei. Um pequeno e impecável travesseiro quente nos esperava, em meio a outros objetos-instalações que nos conectavam. Deitei a cabeça, suavemente, como quem teme ‘estragar’ a obra. Início da arte interativa. Pessoas ressabiadas, ambiente escuro, sem luz, salvo a de cada obra exposta.
…pois bem. esta é a política. manchetes da Folha de São Paulo, 6 de maio. (sem ler as matérias e/ou reportagens)
Um pouco de Philip Glass… Fronteiras do Pensamento POA: 






